OPINIÃO: DE “VOZ DO POVO” A CAMPO DE GUERRA — A CRISE SEM FIM DA RÁDIO ARAÇÁ FM EM MARI
A Rádio Comunitária Araçá FM, na cidade de Mari, na Paraíba, nasceu há 28 anos com uma missão nobre: informar, dar voz à população e servir à comunidade mariense. No entanto, ao longo do tempo, o que era para ser um espaço democrático se transformou em um verdadeiro campo de batalha marcado por conflitos internos, disputas de poder e, mais recentemente, acusações gravíssimas.
Não é de hoje que problemas existem dentro da emissora. Desde sua fundação, relatos de atritos entre direção, comunicadores e sócios fazem parte da história. Durante muitos anos, esses episódios ficaram restritos aos bastidores — uma realidade compreensível em tempos sem redes sociais, quando tudo era mais fácil de ser abafado.
Mas os relatos são preocupantes: comunicadores expulsos ao vivo, sócios afastados com justificativas questionáveis e colaboradores que deixaram seus cargos após sofrerem pressão psicológica. Situações que, se confirmadas, mostram que o ambiente interno nunca foi tão harmônico quanto se tentava aparentar.
Nos últimos anos, a chegada de uma nova equipe trouxe um elemento que antes parecia inexistente: o enfrentamento. Comunicadores mais ativos passaram a questionar decisões da direção, rompendo com uma cultura de silêncio. O problema é que isso expôs um choque direto com membros antigos, muitos dos quais são acusados de agir como se fossem “donos” da associação, sem aceitar opiniões divergentes.
No campo político, a rádio também nunca esteve distante de polêmicas. Durante a gestão do ex-prefeito Marcos Martins, os conflitos com integrantes da emissora foram intensos, inclusive com disputas judiciais que marcaram época.
Com a chegada de Antônio Gomes ao comando do Executivo, houve uma aparente trégua — mas que não passou sem críticas. A proximidade entre rádio e gestão levantou questionamentos sobre imparcialidade, rendendo até o apelido de “Rádio Gomes”, diante da percepção de que problemas da administração eram pouco debatidos, enquanto vozes contrárias encontravam resistência.
Na atual gestão da prefeita Lucinha da Saúde, o clima voltou a azedar. A relação entre o Executivo e a rádio comunitária é considerada uma das mais difíceis dos últimos anos. Há relatos de restrições na divulgação de ações institucionais, limitação de tempo para informes e novos atritos internos que só agravaram a crise.
E quando parecia que a situação já havia chegado ao limite, veio o episódio mais recente — e talvez o mais grave de todos.
Neste sábado (11), um diretor da associação, Marcelo Joaquim, utilizou suas redes sociais para fazer acusações extremamente delicadas. Ele apontou os comunicadores Mayara Paiva, Emerson Aluízio e Jailton Alves, além do radialista Marcos Sales — que dedicou cerca de 15 anos à emissora — como responsáveis por problemas de saúde do atual presidente, Zezinho do Evangelho.
A repercussão foi imediata. Os acusados reagiram publicamente, gravaram vídeo, registraram boletim de ocorrência e anunciaram que irão acionar a Justiça por calúnia e difamação. O que antes era conflito interno agora se transforma em caso policial e judicial.
Nos bastidores, o clima é descrito como insustentável. A direção está dividida, relações estremecidas e o futuro da emissora cada vez mais incerto. De olho na eleição da mesa diretora em 2027, dois grupos já se formam: de um lado, membros antigos; do outro, uma nova equipe com propostas mais modernas e pensamentos diferentes.
O resultado é um racha evidente.
Diante de tudo isso, fica uma reflexão inevitável: o que aconteceu com a Rádio Araçá FM?
O slogan “A voz do povo nas ondas do novo” parece hoje apenas uma lembrança distante. A emissora, que deveria ser instrumento da comunidade, corre o risco de se consolidar como espaço de disputa, controle e interesses individuais.
Uma rádio comunitária não pode ser propriedade de poucos. Não pode silenciar vozes, nem transformar divergências em perseguições. Muito menos permitir que conflitos internos ultrapassem todos os limites, chegando ao nível de acusações pessoais graves.
A crise está escancarada.
E a pergunta que fica é simples, mas necessária: ainda há tempo de resgatar o verdadeiro papel da rádio — ou Mari está assistindo à queda de um dos seus principais instrumentos de comunicação popular?
Redação

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