“MORREU PRIMA TANTA.”



Era assim que minha mãe, hoje também já falecida, sempre chamava, com carinho e respeito, Dona Severina Sales. “Prima tanta” não era um nome. Era um lugar no coração. Era uma daquelas tradições antigas que só quem viveu sabe explicar: primas de fogueira, laço de junho, de fé, de família, de tempo. Um pacto simples, mas forte, que atravessa gerações sem precisar de papel.

Eu ainda me vejo menino. Minha mãe nos dava banho, em mim e no meu irmão mais velho. Depois vinha o ritual: a roupa de domingo, porque naquele tempo, domingo tinha roupa própria, como se o corpo também precisasse aprender reverência. Cabelo bem penteado, repartido no meio, e o cheiro marcante da Seiva de alfazema, perfume que parecia anunciar: “hoje é dia de visita bonita”. E então ela dizia, como quem abre uma porta para o afeto: “Vamos na casa de prima tanta.”

Acredito que Dona Severina morava ali perto, na Rua Santos Dumont. Eu não lembro de Marcos Sales ou de Padre Elias naquela época. Mas lembro da cena que se repetia como um filme bom: enquanto minha mãe conversava com a prima de fogueira, meu irmão crescia em amizade com Isaías e Manoel Sales, amizades que, como as coisas verdadeiras, duram até hoje.

Dona Severina era mais do que uma pessoa da família: era ponte. Ela conheceu o pai da minha mãe, meu avô materno, que eu não cheguei a ver. Ela conheceu “todos”. E por isso, muitas vezes, quando eu aparecia por lá por outros motivos, bastava um instante e eu já estava mergulhado em histórias da minha gente. histórias que eu não vivi, mas que me davam raiz. Dona Severina carregava memória no olhar. Guardava passado como quem guarda retrato dentro do peito.

Minha mãe se foi há alguns anos. Hoje, Dona Severina se foi também, e justamente no começo do mês que fez das duas primas de fogueira. Isso me aperta de um jeito que não sei dizer direito. É como se junho ficasse mais silencioso. Como se a fogueira perdesse uma chama.

Dona Severina deixa saudades dentro e fora da família. Leva com ela lembranças que eu não cheguei a viver, mas que ela contava como quem devolve um pedaço do que o tempo levou. E eu fico imaginando, porque a fé também é isso, uma esperança teimosa, que as primas de fogueira se reencontrem em algum lugar de paz. E que “prima tanta” abrace Dona Gonçala e diga: “Eles estão todos vivos de saudade. Mas seguindo.”

Hoje eu não escrevo só por tristeza. Escrevo por gratidão. Porque gente como Dona Severina não morre de verdade. Gente assim vira casa dentro da memória.

Descanse em paz, Dona Severina.

Junho agora tem uma estrela a mais.


- (Manuel Batista)

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