ANÁLISE | Lucinha e Lucas enfrentam o mesmo desafio e dão a mesma resposta sobre quem governa

 

Foto Reprodução 

Na política, há coincidências que parecem cuidadosamente ensaiadas. Mas nem sempre são. Algumas simplesmente acontecem e acabam revelando muito sobre o momento vivido por quem ocupa o poder.

Foi exatamente isso que ocorreu com a prefeita de Marí, Lucinha da Saúde, e o governador da Paraíba, Lucas Ribeiro. Em entrevistas concedidas em ocasiões diferentes e sem qualquer relação entre si, ambos responderam praticamente à mesma pergunta: afinal, quem é que manda?

Na última semana, durante participação no Podcast Em Debate, Lucinha foi confrontada sobre os bastidores da administração municipal e a percepção de que outras pessoas exerceriam influência sobre as decisões da Prefeitura. A resposta veio sem rodeios.

“A gestora de Marí é Lúcia de Fátima. Ninguém faz nada sem a permissão dela.”

Dias depois, foi a vez de Lucas Ribeiro enfrentar questionamentos semelhantes. Em entrevista à Pop FM, o governador respondeu às especulações de que decisões do Governo do Estado estariam sendo compartilhadas ou influenciadas pelo deputado federal Aguinaldo Ribeiro.

A resposta também foi direta.

“Quem está tomando a decisão? Sou eu, rapaz. O governador sou eu. A responsabilidade é minha e qualquer decisão recai sobre mim. Não vou admitir que venham dizer que existe interferência de outra pessoa. No fim do dia, sou eu, o papel e a caneta para responder e decidir.”

As falas não foram combinadas. Não há qualquer indício de que uma tenha influenciado a outra. Pelo contrário: tratam-se de respostas espontâneas a situações muito semelhantes, vividas por gestores que, embora estejam em esferas diferentes da administração pública, enfrentam um fenômeno político bastante conhecido.

Quando um líder assume um cargo pela primeira vez, frequentemente passa a conviver com dúvidas sobre sua autonomia. No caso de Lucinha, por ser prefeita de primeiro mandato. No caso de Lucas, por assumir pela primeira vez o comando do Governo do Estado. Em ambos os casos, surgem narrativas que tentam atribuir a terceiros o verdadeiro centro das decisões.

Esse tipo de desconfiança costuma atingir principalmente lideranças que sucedem grupos políticos consolidados ou que compartilham espaço com figuras de grande influência. A consequência é previsível: em algum momento, o gestor sente a necessidade de reafirmar publicamente aquilo que, em tese, deveria ser óbvio: quem responde pela administração é quem ocupa o cargo.

Há ainda outro aspecto interessante. Lucinha e Lucas representam perfis bastante distintos. Ela chega ao comando do município trazendo pouca a experiência na vida pública, muito mais  na área da saúde. Ele assume o Governo da Paraíba como um dos mais jovens governadores da história recente do Estado. Diferenças de idade, de contexto e de escala administrativa não impediram que ambos enfrentassem o mesmo tipo de questionamento.

Talvez a reflexão mais madura tenha sido apresentada justamente pela prefeita de Marí, ao reconhecer que governar também é um processo de aprendizado.

“Eu não vou dizer a você que a gente entra sabendo de tudo. A gente vai aprendendo no dia a dia. Quando começa a participar dos eventos, conversar com prefeitos, com a equipe e com os políticos, a gente vai aprendendo e trabalhando cada vez melhor.”

A declaração foge do discurso da infalibilidade tão comum na política. Em vez de transmitir uma imagem de quem já sabe todas as respostas, admite que a experiência administrativa é construída diariamente. É uma visão que também dialoga com a realidade de qualquer gestor público: liderança não significa conhecer tudo desde o primeiro dia, mas assumir a responsabilidade pelas decisões e evoluir com elas.

No fim das contas, a coincidência entre as duas entrevistas revela mais do que frases parecidas. Expõe um desafio permanente da política contemporânea: antes mesmo de apresentar resultados, muitos governantes precisam convencer parte da opinião pública de que são, de fato, quem exerce o comando.

E, curiosamente, tanto em Marí quanto na Paraíba, a resposta foi praticamente a mesma: a autoridade pode ser compartilhada na construção política, mas a responsabilidade pela caneta continua sendo de quem foi eleito para governar.

Redação/ExpressoPB

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