Editorial | Quando a política ultrapassa os limites da decência
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| Imagem ilustartiva de IA |
A política de Mari, município paraibano com pouco mais de 21,5 mil habitantes, parece caminhar, a cada dia, por um terreno cada vez mais preocupante. O debate de ideias, a apresentação de propostas e a disputa democrática vêm, em muitos momentos, sendo substituídos por ataques pessoais, discursos de rancor e pela lamentável utilização de famílias como instrumentos de guerra política.
Infelizmente, esse não é um episódio isolado. Há lideranças que carregam um histórico de fomentar divisões, alimentar conflitos e envolver pessoas simples em disputas que deveriam permanecer exclusivamente no campo político. O resultado é um ambiente de intolerância que extrapola os limites da política e invade os lares marienses.
Nos últimos dias, um episódio chamou a atenção da população. Uma senhora comemorava seu aniversário ao lado da prefeita do município. Em outro momento, o ex-prefeito Antônio Gomes dirigiu-se à residência da aniversariante para também prestar sua homenagem. Até aí, não haveria qualquer problema. O que causa estranheza é que a própria aniversariante sequer estava presente quando o ex-prefeito realizou seu discurso.
Em vez de uma simples visita de cortesia, o momento acabou sendo utilizado para críticas à gestão municipal. Durante sua fala, Antônio Gomes acusou a prefeita de não pagar o aluguel da aniversariante em uma rua "digna". A declaração provocou questionamentos entre moradores da cidade. Afinal, ao sugerir que apenas determinados locais seriam dignos para se morar, não estaria, ainda que indiretamente, desrespeitando todos os cidadãos que vivem em comunidades como a Rua Malaquias e tantas outras?
Mais preocupante ainda foi ver familiares da aniversariante, sendo colocados involuntariamente no centro de uma narrativa política construída sem a presença da própria homenageada. Um momento que deveria ser de celebração transformou-se em palco para um discurso de confronto.
É importante destacar que este editorial não pretende defender este ou aquele grupo político. O que se questiona é o método. A democracia é saudável quando há divergência de opiniões, fiscalização e oposição responsável. No entanto, quando a disputa passa a utilizar pessoas humildes e suas famílias como ferramentas para atingir adversários, ultrapassa-se uma linha que jamais deveria ser cruzada.
Mari já testemunhou inúmeros episódios em que relações familiares foram abaladas por disputas eleitorais. São amizades rompidas, parentes que deixam de se falar e comunidades divididas por interesses políticos que, muitas vezes, desaparecem logo após as eleições. Enquanto isso, as famílias permanecem com as feridas abertas.
O poder é passageiro. Cargos públicos têm prazo para começar e terminar. O respeito às pessoas, porém, deveria ser permanente. Quem exerce liderança política precisa compreender que sua responsabilidade vai além dos palanques e das redes sociais. Suas palavras influenciam comportamentos e podem contribuir tanto para unir quanto para dividir uma cidade.
Que os políticos façam suas campanhas, defendam seus projetos, critiquem seus adversários e disputem o voto da população. Isso faz parte da democracia. Mas que preservem aquilo que existe de mais valioso em uma sociedade: a dignidade das pessoas e a harmonia das famílias.
Porque nenhuma vitória política justifica destruir aquilo que leva uma vida inteira para ser construído.
Folha do Araçá

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