O PAPEL DA IMPRENSA NA CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA
No aniversário oficial da
Paraíba, 05/08, não temos nada a comemorar. A frase pode parecer estranha, mas
vamos pensar bem, a data marca “a fundação do Estado, construído sob corpos
indígenas friamente assassinados” pelos colonizadores. Compreendendo isto, me
parece estranho que o estudo apresentado pelos historiadores Dr. Waldeci
Ferreira Chagas e Ms. Júlio Cesar Miguel de Aquino Cabral (UEPB), que analisa a
Serra da Copaoba como um cenário estratégico e sangrento da colonização no
Brejo paraibano, não seja alvo dos tabloides jornalísticos da nossa Paraíba.
Parece que a nossa nobre imprensa anda muito ocupada com as distrações que
dizem pouco ou nada ao povo paraibano. De sorte que, para todo caso, existe
exceção, dentre as quais este veículo por onde o leitor/a tem lido sobre este
debate.
O estudo realizado com
muito esmero busca combater o apagamento histórico dos povos indígenas,
contrapondo evidências científicas de resistência nativa à narrativa romântica
promovida pelo poder público de Serra da Raiz-PB. A pesquisa integra o livro “Escritos
de Corpus”, organizado pelo Dr. Durval Muniz de Albuquerque Júnior, Dr. Álvaro
Luis Lins e Dr. Thiago Venícius de Sousa. A pesquisa, apesar de não receber a
devida atenção da nossa adorável imprensa e das autoridades, propõe uma revisão
séria para a História da Paraíba. Não se trata de discutir onde nasceu a
Paraíba, pois onde quer que tenha surgido caminhou sobre corpos e viajou em
rios de sangue dos povos originários, a pesquisa aponta para a descontinuidade
da História oficial do Estado e aponta categoricamente que “Iratembé” é um mito
turístico que macula a memória dos povos da Copaoba que ocupavam toda região do
Brejo paraibano, embora sua base tenha respaldo numa narrativa presente no
livro História do Brasil do Frei Vicente do Salvador.
Em uma democracia séria, em
que impera as múltiplas versões dos fatos, seria razoável a adoção, da nossa
respeitável imprensa, em se empenhar a mostrar/narrar/escrever sobre o roteiro
turístico oficial que o poder público do município de Serra da Raiz-PB ou guias
turísticos reproduzem, incluindo nele o mito. Como se sabe, “uma mentira
contada mil vezes, cria o efeito e ilusão da verdade, embora não se torne um
fato real”. Voltando ao ponto, seria pertinente e adequado, entrevistar os/as
historiadores(as) que, através de pesquisa séria, puderam apresentar outra
versão da história, que desconstruiu o mito em torno de “Iratembé”. A
existência de uma indígena com esse nome, revela o estudo, está baseado numa
história que é feita para “vender turismo”, sem nenhuma pesquisa histórica,
teórica ou documental que lhe dê motivo de ser reproduzida, a não ser por
interesses outros.
É lamentável, mas é
preciso (escrever) dizer, infelizmente alguns veículos de comunicação do Estado
e principalmente da região do Brejo, ainda que se vinculem a um jornalismo
sério e imparcial, vem se mostrando aliados do capital financeiro turístico e
do poder institucional, de torneiras abertas. Um jornalismo que não convida a
ampliação do diálogo com a diversidade, fecha as portas para um fato histórico
que redesenha a história do espaço em que se situa, não pode ser considerado de
credibilidade e sério, me desculpem a franqueza. Fecham-se as portas para
estudiosos (intelectuais) e dão palco para meia dúzia de vendilhões da memória
étnica do povo indígena da Copaoba, que ferem a autodeterminação dos nossos
povos originários. Por outro lado, vale a pergunta: por que isso acontece? Qual
a motivação que parte da imprensa tem para esse comportamento?
Quando a iluminação de uma cidade, um
calçamento, a reforma de uma UBS ou mesmo a grama de um campo é renovada, vira
notícia, um estudo que impacta a História da Paraíba não. Ele não é importante?
Assim, será que nossos veículos alcançam sua função social na sociedade? uma
vez que suas concessões contam com esse braço. Um jornalismo cidadão,
preocupado com a apuração dos fatos, que são “vendidos” pela imprensa oficial,
e com a multiplicidade de versões para garantir a imparcialidade,
característica de um jornalismo coerente com a realidade, está interessado em
desvelar as intenções dessa invisibilidade. Um jornalismo investigativo, cobra
respostas oficiais as autoridades constituídas: quais são as fontes que as
autoridades constituídas do município de Serra da Raiz-PB têm para criar o
slogan “a Paraíba nasceu aqui”? Se tem, apresentem ao público. Qual a lógica,
se não financeira, em dizer que a cidade é terra de “Iratembé”, nenhuma. Esse
nome não é citado em nenhuma fonte do período colonial. Aliás, as autoridades
de lá parecem recolonizar a coisa toda, puxam para si a Copaoba, como se ela
fosse propriedade deles.
Estranho é o silêncio dos
municípios ao redor, que sendo também do território da Copaoba, não o
reivindicam para si, deixam que suas identidades sejam tomadas por uma única
cidade, que leva junto toda sorte de investimentos econômicos e turísticos.
Diante desses fatos, resta aos nossos respeitáveis veículos de comunicação da
cidade, não, e da região, sim, consultar os/as historiadores/as e lhes
perguntar: Qual o fundamento do estudo apresentado e quais documentos lhes
permite tais alegações? Alcançariam muitas boas respostas, não tenho dúvida. E
compreenderiam o óbvio, os pesquisadores e seu estudo não estão em busca do
cargo comissionado – por excepcional interesse público (pessoal dos políticos)
– nem desejam embargar o lago ou impedir o desenvolvimento turístico da cidade
de Serra da Raiz-PB. O desejo é sim mostrar uma pesquisa – que deveria ser
orgulho para as administrações públicas, sérias, pois ajuda a entender a
construção da identidade da região brejeira de maneira mais coerente – e
demonstrar que a história de todos os lugares está em construção.
A memória, objeto de
estudo da história, está sempre em disputa e para construí-la é preciso ter cuidado,
especialmente no caso analisado. Do contrário conta-se uma mentira, a história
da carochinha. Não podemos conceber/aceitar que se assassina a memória indígena
(epistemicio, memorisidio) e mais uma vez se cometa violência contra os povos Potiguara,
dando continuidade a colonização do território da Copaoba (que está para além
de Serra da Raiz-PB). Agora se coloniza a memória, de uma história real onde
uma criança de 15 anos, foi sequestrada e estuprada pelo colonizador, se cria o
mito da paixão ardente de nome “Iratembé”. Não podemos conceber isso como normal,
nem aceitar a descrição colonial feita da filha do cacique Iniguaçu. OS
DISCURSOS OFICIAIS TRANSFORMARAM A INVASÃO TERRITORIAL DA COPAOBA E O DESEJO
SEXUAL DO COLONIZADOR NUMA "LENDA TURÍSTICA".
Por: João Paulo F. da
Silva
Mestrando em História
pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Membro do Grupos de Pesquisa
Cotidiano, Cidadania e Educação (GPCCE), Grupo de Estudos e Pesquisas em
História Pública (GEPHP), Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Álvaro Vieira
Pinto (GEPAVP) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas
(NEABI/UEPB/CAMPUS III). Especialista em Ensino de História do Brasil e do
Mundo Contemporâneo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Gestão Pública
na Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Santa Catarina
(IFSC). Pós-graduando em Direitos Humanos e Direito das Pessoas Socialmente
Vulneráveis pela Faculdade I9 Educação.

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